quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Treva

Este escuro em que eis-nos é tanto, que ao despirmo-nos custa o encanto.

Gugu Keller

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

domingo, 18 de fevereiro de 2018

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Entrevista Futurista

- Governador, que políticas o sr. pretende adotar em relação à capital do estado agora que 99,9% da população morreu em virtude da violência?
- Bem... Eu já começo te respondendo que essa informação não está correta. Existe uma distorção política dos fatos que é feita com enorme má fé pela oposição e que não interessa a ninguém. Eu posso assegurar a você que há mais de 20.000 vivas hoje na cidade do Rio de Janeiro, ou seja, se tínhamos em 2018 uma população de 6.300.000 pessoas, isso significa algo em torno de 0,3% de sobreviventes.
- Quer dizer... 99,7% morreram então...? O sr. acha que essa diferença, de 99,9% para 99,7% é significativa?
- É claro que acho! É muito significativa! O nosso governo prioriza a vida acima de tudo! E cada vida conta, como não? Cada vida é uma vitória da nossa atuação contra a violência, contra o crime organizado!
- Mas o número de pessoas que perderam a vida não é muito alto, governador? 99,7% da população?!?
- Você sempre tem várias maneiras de analisar um mesmo fato... Para nós o mais importante é que a violência caiu vertiginosamente nos últimos meses. Há não muito tempo você tinha um homicídio a cada meio segundo na cidade do Rio. Agora nós já estamos há quase meia hora sem nenhum crime desse tipo ser registrado. Esta é uma vitória muito importante das nossas unidades pacificadoras, que eu faço questão de, com muito orgulho, ressaltar!
- Sim! Mas o número de homicídios caiu porque, agora que já está praticamente todo mundo morto, não há praticamente mais a quem se matar na cidade...!
- Às vezes, minha cara, você tem um roteiro a ser seguido que comporta algumas variáveis. Eu não vou te dizer que tudo saiu exatamente como gostaríamos. O dia a dia dos acontecimentos é muito dinâmico, entende? A vida pública sempre me ensinou bem isso. Mas o realmente importante é a pacificação! Hoje o Rio de Janeiro está pacificado, sim! E nós nos orgulhamos muito disso!
- Em virtude dessa quantidade de pessoas que morreram devido à violência, nós tínhamos a informação de que seriam 99,9% da população mas o senhor diz que foram apenas 99,7%...
- Ah! Isso eu posso te assegurar! Tenho todos os dados na minha mesa!
- Pois bem... Mas, em razão disso, muita gente agora está dizendo que o Rio se tornou uma cidade-fantasma. Como o senhor vê isso?
- Vejo como uma excelente oportunidade para investirmos ainda mais no turismo, que sempre foi um setor de grande pujança para o povo carioca. Você vê, por exemplo, no oeste americano, o sucesso que fazem as cidades-fantasma, sobretudo aquelas do tempo dos filmes de bangue-bangue... E agora nós temos nas mãos a maior cidade-fantasma do mundo! Imagine as perspectivas que isso traz para o nosso comércio...! Temos o plano, por exemplo, de transformar o nosso metrô num trem-fantasma... Será o maior trem-fantasma do mundo! Vai atrair turistas do mundo inteiro, você pode ter certeza, principalmente agora com a violência controlada, com a pacificação que nós promovemos...!
- O senhor acha então que o turista não tem mais medo de vir para o Rio?
- Não, não tem. Até porque não há mais do que ter medo. A violência acabou! E muitas outras coisas evoluíram também... Não temos mais filas nos hospitais, não temos mais falta de vagas nas escolas públicas, é uma outra situação que o Rio de Janeiro vive hoje...!
- Sim! Não há mais filas nos hospitais nem falta de vagas nas escolas porque praticamente todos os doentes e todos os alunos morreram! Tá todo mundo morto! Quem não foi atingido por uma bala que lhe era endereçada, foi atingido por uma bala perdida! Além disso, como o senhor deve saber, mias da metade dos sobreviventes, sejam eles 0,1% ou 0,3%, estão inválidos em razão de ferimentos. O senhor acha que mesmo assim há o que comemorar?
- Foi uma fase difícil por que passamos, eu admito. Mas há, sim, o que comemorar, como não? Nós atingimos a pacificação. Hoje, por exemplo, não há mais confrontos em favelas...! Você tem idéia da vitória que isso representa?
- Mas também é porque não há mais ninguém nas favelas! Morreu todo mundo!
- Exatamente! Ficou tudo pacificado! Por mais que os nossos opositores nos critiquem, eles têm que engolir que nós atingimos o nosso objetivo!
- Governador, e quanto aos cadáveres?
- O que é que têm?
- Há centenas de milhares de cadáveres espalhados por toda a cidade, governador, muitos deles em avançado estado de putrefação. O senhor não pretende tomar nenhuma medida a respeito, até por se tratar de uma questão sanitária?
- Aí eu já não posso responder, minha querida. Os cadáveres, como você pode depreender da lei, são um problema municipal, e não estadual. São, portanto, posso te afirmar, cadáveres municipais.
- Cadáveres municipais?
- Sim! Por força da lei e do direito! Isso é indiscutível!
- Bem... Muita gente diz que nos cemitérios da cidade não há lugar para nem 1% desses cadáveres, tamanha a quantidade...
- O prefeito não é pastor? Quem sabe ele possa arrumar terrenos no céu...
- Governador, juntamente com todo o seu secretariado, o senhor conseguiu sobreviver a toda essa violência, voltando a ela... Como foi isso? Os senhores tomaram algum providência defensiva, contrataram algum esquema de segurança ou algo assim?
- Como você sabe, devido àquela absurda acusação do ministério público, acatada por uma não menos absurda decisão judicial, nós nos encontrávamos todos no presídio, não é? Então,  nós pensamos... "Há tantos presos que cavam túneis em suas celas. Por que não cavarmos um bunker?"
- Ah! Os senhores cavaram um bunker?
- Exatamente! Idéia do meu secretário de segurança!
- E assim, com o bunker, os senhores sobreviveram a tudo o que se passou?
- Sim! E agora que esse habeas corpus de Brasília fez justiça e nos devolveu a liberdade, estamos mais do que nunca empenhados em trabalhar em prol do povo do Rio de Janeiro, a quem nós servimos sempre e acima de tudo.
- E em que projeto o senhor está mais empenhado neste momento?
- Estamos totalmente empenhados em trazer para cá os próximos Jogos Olímpicos de Inverno! Tenho plena certeza de que vamos conseguir e que vai ser sucesso sem precedentes! Vamos aproveitar que a violência é coisa do passado e vamos investir nesse grande evento! O povo carioca merece!
- Mas e a neve? O senhor vai mandar trazer a neve para cá? Quanto isso vai custar?
- Já está tudo sendo estudado.
- Mas já há denúncias de que essa neve seria superfaturada, o que traria um rombo aos cofres públicos sem precedentes... Dizem que todo o orçamento do estado ficaria congelado nessa neve toda...
- Como sempre, acusações levianas para as quais não há e nunca haverá nenhuma prova! Os meus opositores sabem que brevemente vão ver uma prova de esqui no gelo na descida do Corcovado, e isso os incomoda muito, e aí ficam inventando esse tipo de leviandade para tentar desestabilizar o meu governo! Mas não vão conseguir! Eu amo o Rio de janeiro! Viva o Rio! Viva o Brasil!
- Muito obrigada pela entrevista, governador.
- Sou eu quem agradece.
 
Gugu Keller